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9 novembre Memorias...para partilharO pôr do sol mais intenso que me recordo de assistir. Talvez porque cá dentro estava tudo arrumadinho, gavetas fechadas, pronta para mais uns quantos encontrões da vida. Talvez porque o momento era tranquilo, e a beleza está sempre nos olhos de quem vê. Talvez...
Talvez porque mesmo querendo deixar pelo caminho todos os amores de uma vida, acabamos sempre por carregá-los connosco e eles, cá de dentro de nós, acabam por ser a nossa companhia para dividirem connosco toda a beleza que a vida contém. Talvez porque há este fascínio pelo mar... por acreditar sempre que quando vaza a maré, toda a nossa dor foi para longe e nos sentimos prontos. Pronta para recomeçar mesmo que nem se saiba muito bem o quê. O momento de saber que chegou a hora de partir, depois de ver toda a minha vida de longe e de acreditar que afinal, não seria tão ruim quanto me parecia no momento em que aqui cheguei. Afinal ainda sou capaz. Capaz de lamber feridas, curar da melhor forma que sei, levantar, sacudir poeira, seguir em frente, por mais terrivel que tenha sido a minha dor. Afinal ainda sou capaz... Creio que deixei neste mar toda a mágoa. Talvez hoje, agora, que já parti e já cheguei, sinta tudo de forma muito mais leve. Para quê guardar as palavras em nós? De que valem? Para quê falar de ódio quando só se quer falar de amor...
Como confissão: neste banco, sentada na beira da falésia enquanto o sol se despedia baixinho dando a certeza que amanhã voltaria e que tudo ficaria melhor, lembrei de todos vós. Pensei que era isto que tinha de partilhar com todos aqueles que aqui vêm. Esta sou eu. É nisto que me revejo, que faz parte de mim nas horas em que me procuro cá por dentro. Momentos para mim tão intensos, coisas tão simples como um pôr do sol na beira da falésia...em que é tão fácil simplesmente cair. É assim que se comemora a vida, com um brinde. E nesse brinde que fiz a cada um de vós, mesmo estando só, desejei que cada um encontrasse o seu lugar por tudo o que ao longo destes dias partilharam comigo. Estiveram aí, dividimos e multiplicámos tanto daquilo que faz parte de mim. O meu agradecimento... 7 novembre Outras mãos...O desejo é assim... enquanto não se satisfaz, consome-nos.
As noites parecem sempre longas e quentes....o corpo grita sem ser ouvido.
E a alma, essa só implora por outras mãos que percorram cada pedacinho da pele suada, que arde.
E a pele, essa só suplica por prazer, tacteia no escuro. Sem encontrar... A boca que só procura um travo diferente de saliva.... E os olhos que só querem outros olhos para que se possam fechar. As mãos que querem agarrar a carne com cheiro a sexo que fica preso nelas em cada despedida...
E o sexo que se quer unir a outro sexo sempre que a vontade ressuscita... 6 novembre Em delilio no meu pensamentoO cair do pano...Aprontei-me para não chegar tarde. Queria ficar perto do palco, para te ver.
Cá por dentro, um medo de que erasses os passos ou que não acompanhasses as meninas que já são mais velhas que tu. Mas não... todo o espectaculo e eu ali, a sair-me orgulho por todos os poros, uma tia babada. Tu com um vestidinho cor de rosa, como as princesas dos contos de fadas, eu a ver-te entre um passo e outro, como se me estivesse a ver a mim, mas em épocas diferentes. Eu aos 30 a ver-me dançar aos 7.
Dizem que és parecida comigo. E és.
Mas sei que tu vais tornar-te numa mulher bonita. Sei que vais ser delicada, sensivel. Sei que verás o mundo de uma forma diferente das outras mulheres que te rodeiam, e por isso te sentirás diferente, quando só quererás ser igual. Para ti, viver, terá um significado muito maior. E sei que tu não vais ficar indecisa entre caminhos a escolher. Sei que ao decidires não vais olhar mais para trás, mesmo que à noite, no escuro do teu quarto, sintas que toda a tua vida podia ter outro rumo se... Mas esse "se" nunca será de arrependimento. E sei tambem que terás sempre a coragem de seguires em frente, mesmo que a vida te maltrate e magoe, mesmo que a vida te queira obrigar a sentires-te perdedora, mesmo que a vida nunca te conceda a felicidade de viveres todos os grandes amores e passes por ela apenas carregando-os no teu coração. Sei que em todos os desgostos, a esperança, nunca te abandonará. Acreditarás sempre que um dia, tudo pode ter um final feliz. E passarás pela vida sorrindo... mesmo que em ti chorem baixinho todas as decepções. Heroína....e as heroínas morrem em pé. Eu sei que pela vida fora me continuarás a provocar este nó na garganta sempre que sinto este orgulho de ti.
E estes olhos, sempre rasos de água. Cai o pano e eu, em pé, a aplaudir-te a graciosidade de menina. Vieste ter comigo e por entre abraços, disseste-me: - Tia, esta dança foi para ti. Agora sou bailarina, era o que tu querias ser, não era? Era...há muitos anos atrás, tambem eu queria ser bailarina, nos meus sonhos de criança. Um sonho que nunca pude seguir...e ver-te, foi concretizar esse sonho pelos teus pés.. 1 novembre Bom feriadocirculosNós sabemos. Mas não pensamos nisso. Talvez numa tentativa de enganar a vida. Ou a morte.
Ou não pensamos para não termos a certeza de como somos pequeninos. Ou até, quem sabe, nos iludimos numa eternidade que nem temos. É por isso que tudo é adiado. Porque amanhã eu vou, eu faço, eu digo... Esquecendo por segundos que amanhã, ou um qualquer amanhã, não estarei aqui.
Numa coisa ou noutra, importante ou não, grande para uns e sem significado para outros, todos nós, adiamos algures a vida. Adiamos alguma coisa...
Por isto ou por aquilo fica para depois. E na pressa dos planos, esquecemos o mais importante. Não paramos para ver, para sentir, para conversar.
Hoje as pessoas já não dialogam. Mandam mensagens a trocar o "q" pelo "k" e outras mais que fica dificil perceber. Pelo menos para mim, que sou mulher rude do campo. Já não há tempo. Nunca há tempo.
Não lembramos, ou esquecemos que um dia, teremos todo o tempo. E teremos tempo quando já nada houver o que fazer com ele. Andamos assim, distraídos nos problemas que pensamos ter porque não podemos entrar nos outros e conhecer com exactidão a dimensão dos deles.
Vivemos em circulos. Andamos às voltas sem nunca sair do lugar. E passamos perto de coisas belas sem as admirar porque nos parecem coisas sem conteudo. Na pressa. Na falta de tempo... ... e só depois, muito mais tarde, naquela altura em que um aperto nos mói cá dentro por saber que não podemos voltar atrás, nos damos conta. E só depois percebemos das coisas que estavam ao nosso lado e nós não percebemos. Distraídos que andamos a planear a vida, enquanto essa mesma vida nos passa ao lado no mesmo instante em que passamos ao lado dela. E só depois percebemos... só mais tarde nos damos conta... Que não vimos. Que não sentimos. Que não vivemos. Que neura!...Que neura!...
Esta procura de trabalho põe-me os nervos em franja. Dá-me um nervoso miudinho... Fica dificil seguir com a vida. Quando me divorciei e saí de casa, voltei para casa da mãmã numa situação provisória. Pois... o acampamento já dura há 4 meses. Com estes ordenados, como é possivel sobreviever? Já nem me atrevo a dizer viver. Jantar fora? Cinema? Roupa? Livros? CD's? Sapatos? Perfume? Não sei que merda é essa. Pois... isso é para os ricos. Como em casa, leio os livros que me oferecem no Natal e aniversário, ouço a RFM... Pronto, não ando nua nem descalça. E tambem não cheiro mal que a minha colecção de perfumes feita em tempo de vacas gordas, ainda existe. ReclamaçãoPosso dizer que sou tolerante. Pronto, nem sempre. Mas a maior parte da vezes, sim.
Sempre que vou às compras, lá dou por mim a reclamar interiormente pelos preços de tudo que estão pela hora da morte. Acredito tambem que serei eu e a maioria dos portugueses. Bom, pelo menos a maioria dos que não vivem desafogados. Ah que tal, um livro? Claro que sim!
15.00€ Ah, queres um CD? Não há problema!
19.00€ Hum, um presentinho para o bébé que ainda nem nasceu e que possivelmente só usará esse fatinho interior durante um mês? Fazes bem... mais 16.50€.
Cineminha??? Com ou sem pipoquinha?
Se um café aumentava de 5 em 5 escudos, agora aumenta de 5 em 5 centimos. E depois ainda fico a pensar como há sitios em que pago cafés a 0.70€.
Mas até tolero... Até tolero certas coisas e mantenho-me no silêncio. Mas desculpem lá! Há coisas que nem eu admito.
Um dia destes fui tomar café com uma amiga minha. Cada uma tomou o seu e no fim, cada uma pagou o seu. É justo...
Foi num daqueles dias em que passei todas as horas com sede. Quando me dirigi ao balcão para pagar pedi ao funcionário uma garrafa de água. E ele, do alto dos seus 1.85m diz-me todo sorridente enquanto me entregava o ticket: - 1.90€ - Desculpe?
(Eu já com olhos arregalados e cara de incrédula) -1.90€ Pego eu no papelinho com a descrição dos produtos e pergunto-lhe, serenamente:
- O sr não está, com certeza, a dizer-me que o preço desta garrafa de água é de 1.30€, pois não? - Sim, é... - Ah é? Então desculpe, mas não quero. É triste ver pessoas que são presas por roubar e outras que andam aqui de sorriso no rosto a roubar à descarada.
1.30€ por uma garrafa de água de 0.33cl quando as compram a 0.15€ ou menos???? 1.30€??????? Por uma garrafa de água ainda por cima natural???? Uma água que nem gastou energia para refrescar???? Uma garrafa de água de 0.33cl???? Nã, comigo não! pagar por uma garrafa de 0.33cl ainda por cima natural, 1.30€?? Pôrra, isso equivale a 260$00 na nossa moeda velhinha! Fonha-se, venha o calor que eu cá vou é montar uma barraquinha a vender água! Ladrões! Alguem me explicaTenho horas em que me sinto uma verdadeira lerda. Ou então não consigo atingir o ponto da questão.
Estava ainda do outro lado do mundo quando soube de um dito rapto de criança no sul deste meu país.
Deixou de ser rapto. Uns a dizerem que estava aqui, ali, acolá. Que foi levada por uma rede de tráfico de crianças, que isto, que aquilo. Bom, a minha opinião pouco ou nada conta. É apenas uma opinião. Mas faz-me confusão como uma mãe deixa de saber de um filho e são raminhos de flores e beijos e sorrisos.
Pronto, faz-me confusão. Mas como disse é apenas opinião. Não sei quanto tempo depois falam de sangue no dito quarto. E pergunto eu: este tipo de coisas não devia ser detectado naquela altura? Bom, mas é apenas opinião de quem não percebe nada disso. Já apanhei numa noticia ou outra a suspeita do envolvimento dos pais.
Não surpreende, de facto. O que me surpreende é apenas o holofote que incide nestas pessoas. Como se fossem os unicos que ficassem sem saber de um filho. A ser verdade que não saibam. Porque se não me falha a memória, a mãe da Joana jurava a pés juntos que não.
Não consigo deixar de pensar em desespero, noites vazias, em branco. Em lágrimas, em braços vazios. Em tudo o que pode envolver um desaparecimento. E recordo sempre a mãe do Rui Pedro. Que acredito que conseguiu pelo menos que quase todos nós decorasse o rosto do seu filho depois de muita luta, sem estes holofotes a incidirem sobre si. E mesmo que não se saiba dele, a sua luta não foi em vão, mesmo que não tenha sido, nem de perto nem de longe, tão esmiuçada como este caso.
Pôrra... ninguem tem o poder de desaparecer. Ou está noutro lugar ou simplesmente sem vida. A verdade é que ninguem ocupa o lugar de ninguem. Cada um que não deixa rasto, deixa familia, amigos, pessoas que lhe querem bem. Por isso, todos os que desaparecem são pessoas importantes que precisam ser encontradas. Como pode uma pessoa desaparecer? Mas desaparecem... e o que me deixa sinceramente triste, é que isso acontece todos os dias. Que aqui, no nosso pequeno mundo, desaparecem pessoas, algumas delas crianças. E lamento que nenhuma delas, diariamente, ocupe as horas de informação, repetidamente, como se não existissem outras noticias. Lamento não ver uma fotografia estampada em todos os jornais, em todos os noticiários, sempre que alguem desaparece assim, do nada, sem rasto, neste meu país. E quando noticiam um desaparecimento, não noto a mesma insistência. Serão os desaparecidos portugueses menos importantes? |
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