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January 21 Desejos"Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo -- é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?"
Carlos Drummond de Andrade Este gajo sabia-a toda... e depois ainda me ponho a ler o que ele escreve... só piora, claro está.
Como confissão: estas noites,que não deixam o desejo acalmar faz apetecer o amor num chuveiro. Ou um amor urgente num repuxo qualquer de jardim.
Transformar o chão em cama para satisfazer os pensamentos famintos e satânicos, que se apoderam de mim. Eu assim, no atraso, a criar teias de aranha, até deve fazer mal! Mas pior que isso, ainda me dou ao luxo de ser esquisitinha e arredar mãos que teimam em subir-me pela perna, por baixo do tecido do vestido preto. Mãos teimosas... elas não sabem que eu, com o meu vestido preto, nunca me comprometo. Como é que é possivel? tenho cá para mim, que os homens ao morrerem, nem deus lhes permite entrar no céu por tamanho pecado que cometeram, ao deixar uma mulher como eu, de corpinho de sereia e pezinhos de lã, à míngua. E nem é por nada...mas passo os dias em aquecimento e compareço sempre aos treinos, não sei porque raio é que em dia de jogo fico sempre no banco! Homens... andam a falhar comigo, ai andam andam. Quer dizer que estou mesmo piiiii. January 10 Por uma noite...conduz-me.Esta noite, conduz-me.
Leva-me para longe enquanto a noite misteriosa se transforma em dia. Deixa-me na pele as marcas da paixão, do tesão. Para que de manhã, toda a alma lavada se sinta vazia. E o corpo dorido e cansado faça ver toda a vida de uma forma muito mais leve. Crava-me as unhas na pele, desliza todos os dedos em mim. Sua-me o corpo, aperta-me com os teus braços, puxa-me para ti, diz que me queres.
Desabotoa-me as calças, rasga-me a roupa, deita tudo fora, tudo o que prende por dentro. Agora. Passa-me a lingua no pescoço, nas costas, entra em mim, chama o meu nome. Esgota-me. Tira de mim o fogo, liberta-me de gritos silenciosos, dos olhares perdidos, dos gemidos sôfregos que arrasto.
A noite está quente. Não me perguntes onde quero ir. Leva-me. Conduz-me.
Diz-me tu. Onde me queres levar? December 21 Não custa nada, e é Natal...Olá Nicolau (take 32)
Esta hora, não é uma dessas. Acho um abuso o que fazes. E até acredito que deve ser frustrante ninguem se lembrar de ti o resto do ano. Mas é engraçado que sou capaz de saber o que sentes. É que há pessoal que passa por mim na rua todo o santo ano e só agora me dirigem a palavra. E adivinha para dizer o quê? Feliz Natal! Chega a ser ridicula esta treta de tempo de paz e de amor, que eu, não fossem as luzinhas penduradas nas avenidas, árvores de jardins iluminadas e bonecos de imitação barata dos chineses ou loja dos 300, de pais- natal a teimarem em trepar por chaminés, nem sequer lembrava. Ou pior que isso, fazem de conta que és tu (os tais bonecos de plástico) a trepar varandas, que ainda é um cenário mais triste, fruto da época moderna. Não saberá esta gente que és gordo como um techugo? Como poderias tu trepar o que quer que fosse? Bom... apesar desse discurso de tempo de paz, de amor ( e de caridade! que quase todos se lembram de dar qualquer coisita ao ceguinho que pede esmola todo o ano, como se só agora ele precisasse de comer), eu cá, continuo com vontade de esmurrar as fuças a uns e outros que se armam aos cágados. E a umas e outras tambem... que eu cá não vou nessa treta de não bater em mulheres. Mereçam elas a ver se não lhes vou às trombas! Era o que me faltava.... Ouvi dizer que os teus duendes afinal são doentes. Só assim se explica as horas extras (que duvido serem pagas ou compensadas) que os pobres desgraçados fazem.
Eu, cá vou brincando contigo... porque como já te disse, até tenho horas em que te acho graça. E fico por aqui porque bem sabes que não gosto de te ofender, de dizer que és um charlatão, um filho que nem tem mãe e que continuo a achar que essas botas e esse fato te dão um ar de apaneleirado. Como não te digo estas coisas porque não gosto de te magoar, não as digo e fico-me por aqui. Não te esqueças do meu pedido. Simples, como vês.
December 10 Aprendiz, sim...mas aplicada!Ando numa cidade estranha. Elas vão comigo a falarem de coisas a que perdi a meada porque me deixo levar pela musica que toca baixinho, que vou escutando entre um riso e outro.
Páro no semáforo e deixo o pensamento voar para um sitio que agora já nem lembro... Buzinam-me porque o semáforo passou a verde. Verde como o amor...hoje em dia os amores já não têm o vermelho como cor porque já nunca amadurecem... são verdes, amores verdes. Odeio que me buzinem. E numa tarde de preguiça, sinceramente, não apetece nada levar com um apressadinho. Teimosa, continuo parada.
Buzina outra vez. Saio do carro. Calmíssima. Só queria mesmo paz, de tão cansada que ando das guerras. Das minhas e das que os outros inventam. E até daquelas onde estou sem saber como. E das outras onde me sinto de arma apontada ao peito sem saber porquê. Às vezes sinto falta de sentir a sério...de ter uma daquelas paixões outra vez. Mas tambem sei que o resultado de uma paixão são as lágrimas ou o amor eterno. No meu caso, é mais a primeira.. Caminho em direcção do condutor. - Qual é o problema? Ele sai tambem...a barafustar. Fala alto de tão nervoso. Que tal, que sou cega, que se vê logo que sou mulher, que me saiu a carta no Juá, que com certeza não chega a tempo ao encontro... E eu a perguntar porquê tanta pressa, hoje é Domingo...falo calmamente o que o deve deixar ainda mais irritado. Tira os óculos de sol e vejo-lhe os olhos. Lindos. Atira-os para dentro do carro num gesto rápido com uma mão quase perfeita. Sem aliança. Continua a discutir comigo. Charmoso. Lábios com contornos divinais. E eu calada, a olhá-lo. Alto. Caminho para junto dele, num impulso, deslizo os dedos nos cabelos negros dele, puxo o seu rosto ao meu, dou-lhe um beijo na boca e digo-lhe: - Tem calma... hoje é Domingo. Viro as costas, vou embora. Já não ouço a sua voz rouca que lembra o pecado. Entro no meu carro, devagar...a musica ainda toca baixinho e não se ouvem palavras nem risos, nada. Silêncio. Elas três que não tiram os olhos esbugalhados de cima de mim, caladas. Pelo retrovisor, vejo-o encostado à porta do carro, ainda aberta, parado. Já não gesticula, já não diz nada. Abre o sinal e eu arranco, numa calmia de quem conduz num Domingo calmo, às três da tarde. De quem só quer viver devagar na velocidade louca de uma vida alucinante. Ouço uma buzina...deve ser para ele. Quem sabe não retribui o beijo a alguem que, como ele, vem apressado e só precisa de algo assim, diferente, para ver uma cidade linda, pacata, com olhos melancólicos e frios como estes dias de inverno que por aqui se fazem sentir? Dias em que apetece entrar numa casinha de pedra qualquer e sentarmo-nos à lareira a comer presunto com broa e a beber vinho tinto... a sentir o tempo, calmo...a ouvir os minutos a deslizarem na preguiça das horas. Passado um grande bocado, só ouço a Ana a dizer: - Eu não acredito nisto! E desatamos todas a rir...é que nem eu acredito no que fiz! Apeteceu-me. Pois é...sou aprendiz de mulher, sim. Mas uma aprendiz muito aplicada! E tambem tenho horas destas, que deixo sair aquele outro lado de mim...o lado do escurinho, o lado dos segredos, da luxuria. Mas as atitudes, essas, convem que sejam inesqueciveis... Como confissão: recordo aquele rosto a olhar-me, incrédulo. Talvez à espera que a qualquer minuto saisse alguem de trás de um arbusto, de câmera na mão, a mijar-se a rir e a dizer: apanhado! E aqui entre nós, que ninguém ouve, apetece-me rir só por pensar nisso outra vez... Marta, Marta...isso não se faz!
Obrigado pela visita!
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